A capela da companhia Às tantas, a placa toponímica indica Carmona (Uíge). Logo aparecem as sanzalas e, nelas, estão os meninos de mão estendida a pedir as latas da ração de combate. Como o fim da viagem se aproxima, o pessoal decide brindar os pequenitos com uma chuva de latas. É um verdadeiro festim para aquelas crianças.
Entram numa larga avenida ladeada por vivendas, a que se seguem prédios, os primeiros que avistam depois de Luanda. Depressa atravessam a cidade e já estão a sair quando a coluna se imobiliza junto à porta de armas de um quartel – o Batalhão de Carmona. Nada de novo: mais uma paragem técnica.
Porém, os militares que os esperam, ao avistá-los, desencadeiam uma tremenda algazarra! São os primeiros a recebê-los com tanta alegria!
Porquê este barulho todo? – interrogam-se os maçaricos.
O mistério rapidamente é desvendado. Trata-se simplesmente do pessoal que eles vão render e que veio do Songo a Carmona esperá-los.
Um furriel da companhia que vai ser rendida pergunta:
– Onde estão os furriéis? Não vejo nenhum!
– Eu sou um deles – responde António.
– Então e as divisas? Porque não as trazem?
– Porque aprendemos que, em situação de guerra, não se usam divisas ou galões, conforme se trate de sargentos ou de oficiais.
O outro ri-se e diz:
– Podem pôr as divisas! Aqui não há guerra! Daqui até ao Songo não há perigo, está tudo limpo.
E logo ali lhes fazem colocar as divisas e os galões.
Entretanto, os camaradas velhinhos são imediatamente questionados pelos maçaricos acerca da notícia que haviam lido no jornal no dia anterior, em Luanda. Para reforçarem o que dizem, mostram-lhes a primeira página do referido jornal. Os camaradas, depois de observarem a notícia, não a desmentem, mas também não se mostram impressionados. Dizem-lhes que foi um episódio pouco frequente na área adstrita à Companhia do Songo.
– A zona, embora com guerra, não vê disto todos os dias! Podem sossegar.
– Logo que chegarmos ao Songo pôr-vos-emos a par da situação. As coisas por aqui não são tão más como o jornal as «pinta». Embora seja necessário ter cuidado, há zonas onde os turras atacam, se lhes dermos margem para isso – diz um dos furriéis.
Os velhinhos trouxeram lençóis com grandes letras onde saúdam os maçaricos e se lê: «Lisboa fica só a 8700 km.»
À buzinadela de uma Berliet, seguem para a última etapa da viagem. Restam apenas 47 km para chegarem ao destino. O percurso é feito sob forte alarido por parte do pessoal velhinho que, em clima de grande alegria, canta, bate palmas e dá vivas à peluda. A festa é deles.
É assim, no meio de toda esta exuberante alegria, que entram no Songo. Primeiro passam pela zona das sanzalas, que se estende de um e de outro lado da estrada. Logo de seguida, à esquerda, aparece um lindíssimo jardim, cercado por três grandes vivendas de estilo colonial. Mais à frente, após uma pequena lomba, surge, do lado esquerdo, o quartel.
Aqui, a algazarra e os cartazes são indescritíveis! A receção é verdadeiramente apoteótica! Um pandemónio! Vale tudo. Até tiros para o ar são disparados!
Logo de seguida, oficiais, sargentos e soldados levam os seus novos e tão desejados camaradas para os respetivos bares. Cerveja, whisky e refrigerantes, tudo por conta dos felizardos que se vão embora. É a alegria dos que partem e a apreensão dos que acabam de chegar, numa mistura de emoções contraditórias. Em rigor, há mais apreensão do que tristeza, porque a alegria dos primeiros é tanta que acaba por contagiar os segundos. Para alguns, a festa prolonga-se pela noite dentro.
O segundo e o terceiro pelotões são convocados para partirem de imediato para o Quivuenga, onde devem render igual número de camaradas daquela companhia.
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