Enquanto crescia, ouvia a minha mãe dizer – querida mãe que não tinha a quarta classe –: «Não podíamos gastar mais do que aquilo que recebíamos e, se recebíamos dez, só podíamos gastar nove.»
Hoje, em minha casa, eu e a minha mulher, que, por acaso – ou talvez não – também ouvia isto da sua mãe, seguimos este ensinamento e não nos temos dado mal. Ah, claro, também fizemos questão de o transmitir à nossa filha.
Sempre pensei que esta máxima também se aplicava a quem governa um país. Até por maioria de razão, pois o dinheiro do Estado pertence a todos os cidadãos e não a quem, circunstancialmente, exerce o poder.
No entanto, sempre que vejo o Estado arrecadar mais receitas do que as previstas e, em vez de aproveitar essa folga para reduzir a dívida ou constituir uma reserva para tempos difíceis, optar por aumentar a despesa, fico pasmado.
É aqui que começa a minha burrice. Em vez de se guardar uma parte desse dinheiro e utilizar a outra para responder às necessidades mais urgentes, gasta-se praticamente tudo. E assim se desperdiça uma oportunidade de preparar o futuro.
Porque basta acontecer uma calamidade, uma crise económica, uma pandemia, uma guerra ou qualquer outro imprevisto para surgirem necessidades enormes. E, nessa altura, de onde vem o dinheiro? Vamos, mais uma vez, pedir emprestado?
Será que temos mesmo dificuldade em compreender as coisas? Como é possível, no século XXI e com tantos estudos (e até com IA), não perceber aquilo que as nossas mães e avós – muitas sem a quarta classe e algumas sem saber ler nem escrever – já sabiam, compreendiam e aplicavam: uma regra elementar de boa gestão. Quando havia algum dinheiro, poupava-se sempre qualquer coisa para acudir aos tempos difíceis.
Qual é a parte desta equação que os nossos governantes não entendem?
Será que estamos condenados a andar, ciclicamente, de mão estendida pelo mundo, a pedir dinheiro emprestado?
Não. Eu não quero isso para mim, para os meus filhos e para os meus netos. Chega de vergonha e de apertos de cinto.
Estou aposentado há muitos anos e sei bem o que é viver com rendimentos que pouco ou nada aumentam. Também sei que há momentos em que é preciso fazer sacrifícios pelo bem comum. Se houver uma tragédia que exija um esforço nacional, compreendo perfeitamente que se adiem aumentos ou outros benefícios para acudir a quem mais precisa. Ninguém morrerá por esperar mais algum tempo.
O que me custa compreender é que, quando os tempos são favoráveis, não se preparem os tempos difíceis. É precisamente nesses momentos que se deve governar com prudência, reforçar as reservas do Estado e reduzir a dívida, para que, quando chegar a tempestade, haja meios para lhe fazer frente sem recorrer, uma vez mais, ao endividamento.
Compete ao Governo gerir a coisa pública com inteligência, sensibilidade, sentido de responsabilidade e visão de futuro, respeitando os compromissos que assumiu perante os cidadãos.
Se assim não acontecer, resta-nos esperar que a sorte continue do nosso lado. Mas governar um país não pode depender da sorte. Tem de assentar na prudência, no bom senso e na capacidade de olhar para além do imediato.
A. M.
Imagem: Internet

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