quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A PONTE SOBRE O RIO LUCUNGA

A CART 6553 está profundamente ligada a esta ponte, por maus e bons motivos.


Rio Lucunga - picada Songo/Quivuenga –1973

Quando chegámos ao Songo, ainda não havia uma ponte a ligar as duas margens do rio Lucunga (Songo–Quivuenga). Estavam apenas a iniciar-se os trabalhos preliminares para a sua construção.

Infelizmente, foi precisamente a falta desta importantíssima infraestrutura que esteve na origem da morte de um nosso camarada, logo no início da nossa permanência naquela região. A travessia do rio fazia-se a vau. As viaturas desviavam-se da picada, desciam até à margem, entravam na água, atravessavam o rio e, depois de subirem a margem oposta, regressavam à picada.

O motorista que tinha sido destacado do Batalhão de Carmona (Uíge) para ajudar na identificação das picadas esqueceu-se da inexistência da ponte e, como seguia com alguma velocidade, quando se apercebeu do rio já era demasiado tarde. Guinou o volante, subiu a berma, que era bastante alta, e a viatura capotou. O infortunado camarada ficou com a cabeça esmagada contra o encosto do banco do Unimog.

Entretanto, dava-se início à construção da primeira ponte sobre o rio Lucunga, que ligava a picada do Songo ao Quivuenga. A segurança dos trabalhadores era assegurada pela Companhia do Songo, que destacava diariamente um pelotão para aquele local, permanecendo aí durante uma semana.

Ao chegarem à obra, os militares montavam um dispositivo de segurança. Três secções (cinco homens cada) entravam na mata, composta por cafezais com as tradicionais árvores altas que lhes davam sombra, e estabeleciam um perímetro em redor da construção, nas duas margens do rio, enquanto a quarta secção ficava em descanso. Depois, iam revezando-se alternadamente, em períodos de duas horas.

Os dias passavam lentos e monótonos, sem que acontecesse fosse o que fosse. Até que, numa ocasião, estava eu em cima da estrutura de madeira que iria receber o betão, a olhar para o rio, quando, de repente, me pareceu ver um «alfaiate»[1]. Chamei o Pinto Felgueiras, motorista, que se encontrava perto de mim, e pedi-lhe que observasse atentamente o local onde o suposto réptil se encontrava. O Pinto Felgueiras não precisou de muito tempo para gritar:

— É um crocodilo! É um crocodilo!

A malta que estava de descanso passava o tempo a pedir para ir tomar banho, o que, atendendo ao calor que se fazia sentir, era perfeitamente compreensível. Claro está que, a partir desse dia, mais ninguém quis ir a banhos…

Um dia, os trabalhadores da ponte utilizavam um torniquete, que funcionava como uma espécie de sarilho, para puxarem uma viga de ferro. Eram três as vigas que iriam suportar o tabuleiro da ponte. Já tinham colocado a primeira e estavam a iniciar a montagem da segunda. Tratava-se de um trabalho extremamente moroso; segundo o encarregado da obra, era necessária cerca de uma semana para colocar cada viga.

Fiquei a observar o trabalhador que, lenta e monotonamente, ia movimentando o torniquete para a direita e para a esquerda, vezes sem conta, para conseguir que a estrutura metálica avançasse apenas alguns milímetros. Às tantas, bati com a mão na testa e disse ao encarregado da obra que, com o «burro do mato»[2], poderíamos puxar as vigas num instante.

Estas viaturas tinham tração às quatro rodas, estavam equipadas com um sarilho e, embora pequenas, possuíam uma força descomunal.

O encarregado, com um ar pouco convencido, respondeu que podíamos experimentar. Saltei para cima da viatura, os trabalhadores prenderam o cabo do guincho à viga e, em menos de meia hora, as duas vigas que faltavam estavam posicionadas sobre os pilares da ponte. Foi um trabalho rápido e eficiente.

Apesar do infortúnio que representou a perda do nosso camarada — e talvez também por isso — ficámos sentimentalmente ligados àquele lugar.

Foi, pois, com tristeza que soube que esta ponte tinha sido destruída durante a guerra civil. Por isso, senti uma enorme satisfação quando li que a ponte sobre o rio Lucunga fora restaurada e voltara a estar ao serviço das populações daquela região.

[1] Nome dado pelos soldados aos crocodilos.

[2] Designação dada ao Unimog a gasóleo.


1 comentário:

  1. Temos que começar a pensar no convivio deste ano que se raliza em Coimbra com o Camarada Gomes ( EX. Furriel Milº Mecanico ) á frente da organização. os Contatos dele são: 239403411 ou 919957954 força Camaradas vamos todos estar presente neste convivio de amizade.
    Cândido Silva . EX. Furriel Silva.

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