sábado, 6 de dezembro de 2014

MENSAGEM DE NATAL


Acabo de montar a minha árvore de natal e o presépio e lembrei-me que estava na altura de escrever uma mensagem de natal a todos os BLOGUERES, ao mundo e, mais particularmente, ao pessoal da CART 6553 E AO SONGO/ANGOLA.
A todos um feliz natal.

Vasculho a “caixa das memórias" e encontro este aerograma que partilho convosco por me parecer adequado:

Aqui Songo, Dezembro de 1973
Olá mãe, que saudades dos seus beijos, dos seus abraços, da sua voz, das suas recomendações, até dos seus ralhetes. Enfim, de si, querida mãe!
Espero que este aerograma a encontre bem de saúde e, que, apesar da distância, ele, nos aproxime um pouco um do outro.
Querida mãe, sei que reclama por eu nunca lhe contar o que se passa aqui; pois bem, como estamos perto do Natal e não a quero contrariada, decidi contar-lhe uma operação que acabo de fazer.
Acabava de nascer uma linda e quente manhã de Dezembro, ah, sim, porque aqui estamos agora no verão, e o terceiro pelotão (o meu) partiu para mais uma operação de “Psico” à serra do Uíge. Esta serra está limpa de inimigos, não se preocupe, embora, nos idos de sessenta tenha sido um autêntico vespeiro de turras. Agora, os povos que nela habitam vivem em paz e a pensar no trabalho dos seus cafezais.
O pessoal da Companhia todos os meses faz a travessia desta Serra de este para oeste, com o objetivo de manter a zona livre de inimigo e de contactar com os povos residentes.
Nesta serra, o homem fez uma maravilhosa intervenção na natureza e, ao contrário do que sucede muitas vezes, transformou-a num verdadeiro éden: desbastou a mata, deixando-a, contudo, com o número suficiente de enormes árvores sob as quais plantou cafeeiros, tornando-a num paraíso digno de se juntar a tantos outros, naturais, que existem neste território. Assim, para além da fácil progressão que proporciona, é um prazer caminhar nesta Serra que se atravessa mais ou menos em dois dias, isto, dependendo do plano operacional.
Fomos largados em Nova Caipemba, a oriente do Songo, logo pela manhã. Entrámos na Serra e caminhámos até ao anoitecer: comemos, dormimos e no dia seguinte por volta das dez horas chegámos ao Povo de Santo António e, aí, o Soba do povo ao ver-nos chegar, aproximou-se para nos cumprimentar e, desta vez, fez questão de me levar a uma tabanca onde há apenas dez minutos acabara de nascer um bebé! A mãe ainda estava deitada e tinha a seu lado o menino.
A criança era quase branca e até muito rosadinha, o que me deixou intrigado. Pura ignorância minha. É que eu não sabia que as crianças, filhos de negros, nascem brancas ou quase e, que, só mais tarde a melanina em contacto com a luz solar potencia a pigmentação e escurece todo o corpo. Daí a minha admiração, que não partilhei com ninguém para não ferir suscetibilidades.
O Soba e o pai do bebé quiseram que pega-se no menino! O que fiz com o máximo cuidado e ternura. Este quadro fez-me lembrar o Natal! Talvez por ser Dezembro? – O nascimento do Menino. – Olhe querida mãe, naquele momento senti muita pena de não ter comigo algo para oferecer àquela criança, mas não tinha. Então em silêncio, com o menino ao colo, desejei-lhe as maiores felicidades para a vida que começara. Era tudo o que tinha para lhe oferecer.
Terminado os afazeres neste povo, continuámos a nossa marcha e no dia seguinte por volta das dezasseis horas já estávamos no Songo. Este trajeto é feito à sombra, quer das belíssimas árvores, quer dos cafeeiros, planta sempre bonita em qualquer altura do ano e que no período da floração então nem se fala! O branco das suas flores e o perfume por elas emanado, em contraste com o forte verde da mata e da própria planta do café, é um espetáculo paradisíaco que ninguém devia perder.
Por hoje é tudo, votos de um santo e Feliz Natal para todos aí em casa e não se preocupe que eu estou bem; muitos beijinhos querida mãe e, neste Natal, peça ao menino Jesus que me guarde.
António

Foto retirada da internet