segunda-feira, 29 de março de 2010


O HOMEM E O SEU OUTRO LADO…

Estava uma tarde escaldante, debaixo de uma enorme mangueira abrigavam-se da canícula quatro homens, entre eles estava o Aloquete – um trabalhador assalariado ao serviço do quartel, um pouco mais velho do que nós, andava pelos vinte e seis anos – eu, que nesse dia estava de sargento de dia, aproximei-me e meti conversa, ou melhor, meti-me na conversa. O grupo discutia uma mensagem que o quartel havia recebido, há uns dias, do Governador e Comandante Geral de Angola cujo conteúdo era o seguinte: «informar as populações autóctones que tivessem tido lavras anexadas pelas fazendas dos colonos que apresentassem queixa nas administrações civis ou nos quartéis a fim de estas lhes serem devolvidas».
Pelo que me apercebi só o Aloquete tinha sido vítima desta situação, e perguntei-lhe:
– Então, Aloquete, também te anexaram lavras?
– Sim!
– E já foste apresentar queixa?
– Não!
– Não! Porquê?
– Não vale a pena – respondeu resignado!
– Conta-nos lá isso. – E, o Aloquete contou-nos então a seguinte história:
“Um dia apareceu na nossa aldeia, no Quimacuna, era eu pequenito, tinha oito anos, era o mais velho dos quatro irmãos, todos rapazes, o Sr. (chamemos-lhe) António foi chamar o pai lá a casa, para este ir ao Sr. Administrador no Songo!
Era hábito naquela altura, quando um branco dizia que o preto tinha de ir ao Sr. Administrador, ter mesmo de ir! Mas o pai antes de ir chamou-nos (os três filhos) e disse-nos: «O Sr. Vilhena está a dizer para o pai ir no Sr. Administrador, mas é mentira, ele quer é ficar com as nossas lavras! Penso que ele vai matar o pai e atirar-me para o rio Lucunga! Mas antes de o pai ir quer que saibam que as nossas lavras ficam nos sítios X e Y. Há-de vir um dia que vocês vão poder falar e, nessa altura, elas voltam para ti e para os teus irmãos»! Ele falava para mim por eu ser o mais velho. Depois abraçou-nos, despediu-se da minha mãe que chorava encostada à porta e, por fim, subiu para a caixa da Toyota do Sr. António.” – O Aloquete faz uma pausa, fixou o olhar em mim e disse:
– A verdade é que até hoje o meu pai nunca mais apareceu! E nós deixámos de ter lavras. Estão lá, integradas na fazenda do Sr. António.
– E então, com esta história, estás à espera de quê para te ires queixar e reaveres o que é teu e dos teus irmãos? – Perguntei intrigado.
– Não vale a pena! Sabe? Os meus pais já morreram e já não voltam, os meus irmãos foram para Luanda e eu também estou a pensar ir para lá! De maneira que não vale a pena. Já chega de maka, de guerra e de morte. Agora quero paz. Paz para sempre – concluiu o Aloquete.
Senti-me pequenino, perante a grandeza deste homem e a sua capacidade de tolerância, de perdoar e a fortíssima vontade de, com este gesto, fazer a paz. Olhei-o nos olhos e disse-lhe:
– Uma vez que pensas assim, quem sou eu para te dizer o que deves fazer? E, já agora, o que pensas acerca do futuro de Angola?
– Olhe, Furriel, as coisas não vão mudar assim muito para o povo. Quem tem dinheiro vai ganhar ainda mais, quem é pobre vai continuar a ser pobre. Como vê não tenho grandes ilusões, mas fico contente por Angola ser independente.
– Então quando chegar a altura das eleições, vais votar na FNLA? – Perguntei, abelhudo.
– Não. Na FNLA não. Nunca. Sabe o povo não esquece que quando a FNLA começou a luta armada, matou de igual modo brancos, pretos, mulheres e crianças. Roubou e saqueou tudo sem olhar a nada, nem a ninguém, fez uma razia. Isto, o povo não esquece. Como também não esquece que a UNITA foi criada, ou pelo menos ajudada, pela PIDE. Estas coisas ficam marcadas nas cabeças das pessoas e elas não esquecem. Assim, e para responder à sua pergunta, quando chegar a hora vou votar no MPLA.
– Mas é estranho, pois foi a FNLA quem começou a guerra de libertação e que lutou sempre aqui no norte de Angola, era normal que, a generalidade das pessoas votassem neles? Insisti.
– Sabe meu Furriel, há erros que uma vez cometidos, nunca mais se conseguem remediar e a FNLA cometeu um grave erro no início da luta armada, ao matar os pretos que trabalhavam para os brancos e ao saquear as aldeias. Quando houver eleições o MPLA vai ganhar, pode ter a certeza.
O Mundo seria bem diferente se todos pensássemos como o Aloquete! Porém, é da natureza humana, o homem é capaz de ser generoso e o seu contrário. Mas são homens como este, dignos, que devem merecer a nossa admiração e respeito.
Imagem: Internet

sábado, 6 de março de 2010


Ao fim de 35 anos aconteceu!
No passado dia 4 de Março, cinco ex-furriéis do Sul: Cardoso, Arménio, Chambel, Silva e Magalhães, juntaram-se num almoço e conviveram durante toda a tarde.
Naturalmente, este foi um almoço de recordações, onde a boa disposição esteve presente! E no final, concluímos que os 35 anos passados foram o parêntesis no nosso relacionamento que agora não desejamos interromper mais. Aguardamos ansiosos o próximo convívio alargado que se realizará em Maio.
Até lá, um forte abraço e não faltem.
PS: os camaradas que ainda não foram contactados, mandem-me um e-mail (sampaio.magalhaes@hotmail.com) e sê-lo-ão de imediato. Os outros aguardem que o Vaz, oportunamente, contacta-vos.
Fotografia: José Bule

José Bule/Uíge - 01 de Março, 2010
In Jornal de Angola, Online

População do Songo não cruza os braços

Apesar das inúmeras dificuldades a população do Songo arregaçou as mangas e está apostada em dar nova imagem à região.
"O desenvolvimento de qualquer localidade depende das vias de acesso", disse Costa Manuel, administrador municipal do Songo, tendo solicitado das autoridades competentes um maior apoio para que a estrada seja reabilitada o mais rápido possível.
A administração municipal do Songo já tem definidas as prioridades para desenvolver a localidade. Agricultura, reabilitação das vias de acesso, água e energia eléctrica são as grandes apostas do administrador Costa Manuel.

Agricultura

A população do Songo é maioritariamente camponesa. A mandioca, jinguba, milho, batata-doce, batata rena, feijão, banana, manga, gergelim, muteta, tomate, couve e cebola são os produtos mais cultivados na região.
O município controla um total de 909 cafeicultores, que, em 2009, promoveram acções de comercialização que atingiram cerca de 300 toneladas de café mabuba. No ano passado foi cultivada uma área de cerca de 179.544.5 hectares. A produção atingiu 304.942 toneladas. Sobre os níveis de produção, o sector tradicional foi o que mais contribuiu, com 88.982 toneladas.
A rede comercial é composta por 109 estabelecimentos, como lojas, armazéns, talhos, peixarias e farmácias, mas a maioria não funciona. Apenas 38 estabelecimentos comerciais, sendo 32 lojas, um armazém e cinco farmácias funcionam de forma regular no município.
No ano passado o Programa de Intervenção Municipal (PIM) permitiu a reabilitação, ampliação e apetrechamento dos edifícios da administração municipal e comunal. As residências do administrador municipal e da sua adjunta, para além da residência do administrador comunal, também foram reabilitadas e devidamente apetrechadas.

Energia eléctrica

A vila do Songo não tem energia eléctrica. Os habitantes recorrem aos meios alternativos, geradores, para terem energia nas suas casas e poderem ver os seus electrodomésticos funcionarem.
O problema da energia já se arrasta há mais de quatro anos. Em 2007 o município beneficiou de um gerador de 600 kva para abastecer a vila. Até hoje a empresa encarregue de fazer as ligações domiciliárias e substituir a antiga rede de distribuição, já obsoleta, não dá por concluído os trabalhos de restauro, aliás, há muito que os trabalhadores da mesma não aparecem para continuarem com as obras de restauro.
Costa Manuel, administrador municipal, disse que a energia constitui uma das prioridades, “pois o desenvolvimento do município depende deste bem”. Na localidade, foram colocados 351 postos de iluminação solar, que no período nocturno dão vida à vila, permitindo a circulação normal dos seus habitantes.

Água potável

Songo não tem água potável. A população consome água das cacimbas e dos rios, facto que contribui no surgimento de várias enfermidades, como são os casos das doenças diarreicas.
Tal como em relação a energia eléctrica, o administrador municipal, Costa Manuel, aguarda que haja disponibilidade financeira para que se possa fazer obras de restauro da antiga rede de distribuição de água, substituindo-a por uma nova, e alargando a rede para os bairros que circundam a vila.
Costa Manuel avançou à reportagem do Jornal de Angola que já existe um projecto de abastecimento de água por sistema de gravidade. O rio manzau, localizado a cerca de 15 quilómetros da sede municipal, vai sustentar o projecto.

Faltam escolas e professores

Onze mil e 243 é o número de alunos matriculados no presente ano lectivo. Deste número, cerca de 8.586 frequentam o ensino primário, 2.232 estão no ensino secundário. No II ciclo existem 425 alunos matriculados e pelo menos 245 adultos frequentam aulas de alfabetização.
O administrador municipal do Songo referiu que o município necessita de 245 salas de aulas, para descongestionar algumas escolas e permitir o enquadramento de mais alunos. Costa Manuel avançou que as novas salas devem ser construídas nas localidades de Lucala de cima, Kimalalo, Caricari, Kihinda, Macali, Cambale, 4 de Fevereiro, Kifuati, Kiangala, Kingonga, Kibala, Kiniangui, Kimenongue, Kinzau, Kicalanga, Puco, Pemba, Dibala, Kavunga, Quipemba, Zulumungo, Matenda, e na escola denominada “Tocoísta”.
Dos 776 professores colocados no município, 552 têm o nível básico, 201 são técnicos médios, 13 técnicos superiores e dois licenciados. O município necessita de mais de 200 professores, entre técnicos médios e superiores, para melhorar a qualidade do ensino na região.
Em relação à distribuição da merenda escolar, as escolas do Kimalalu, Kambal, Kiangala, Mbanza Luanda 1º, Mbanza Luanda 2º, Kassalamba, 1º de Maio, Zulumungo, 117, Kifuata, 4 de Fevereiro, Mbau 2º, e Tocoísta, que somam no total mais de cinco mil crianças, beneficiam deste programa.
Noutras escolas a merenda não chega devido a intransitabilidade das vias de acesso.

Também faltam enfermeiros

A rede sanitária é composta por um hospital municipal, um centro e 14 postos de saúde. Um novo posto de saúde está a ser construído de raiz, na localidade de Kavunga. A chefe de repartição municipal da Saúde, Elisa Mateus José, informou ao Jornal de Angola que a maioria dos postos de saúde não funciona por falta de enfermeiros. “Apenas cinco postos de saúde funcionam regularmente”, disse.
A responsável avançou que três médicos e 61 enfermeiros trabalham no município. Mas, segundo a fonte, Songo necessita de pelo menos mais dois médicos e 100 enfermeiros, para que o quadro sanitário seja melhorado.
No ano passado, o hospital municipal registou um total de 1.885 consultas externas, 1.366 consultas de pediatria, 386 de ginecologia, 101 de pré-natal, e 498 intervenções cirúrgicas. Foram também efectuados 208 partos na referida unidade hospitalar.
A malária, diarreias, tosses e as doenças respiratórias são as mais frequentes na região.
Songo tem uma extensão territorial de 2.800 quilómetros quadrados e uma população estimada em 36.798 habitantes. Localiza-se a 40 quilómetros a Norte da província do Uíge, fazendo limites a Norte com os municípios da Damba e Bembe, a Este com o Mucaba, a Oeste com Ambuíla e ao Sul com o município do Uíge.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010





ADMIRAÇÃO E RESPEITO PELAS GENTES DO SONGO


Homens destemidos, os colonos que um dia ousaram deixar para trás o pequeno torrão lusitano e partiram à aventura oceano adentro. Com coragem, ousadia e pioneirismo desembarcaram na imensidão de um território desconhecido, com selvas virgens, povos culturalmente diferentes e, bem lá a Norte, fixaram a sua residência. Desbravaram matas e rasgaram as terras para nelas plantarem e cultivarem o seu sustento; construíram aldeias, vilas e cidades; montaram serviços e indústrias.
No início dos anos setenta no Songo, como nas outras cidades, vilas ou lugarejos de Angola, existiam duas comunidades que embora distintas, por várias ordens de razão que não cabe aqui dissecar, levavam vidas simples e de trabalho. De resto, igual à vida simples das pessoas das nossas aldeias. É como diz o ditado “quem vê o seu povo, vê o Mundo todo”.
Esta gesta de gente cultivou o café e fê-lo como ninguém. A eles se devem as altíssimas produções que Angola conseguiu no ranking mundial, mesmo em tempos de guerra. Os homens do Songo, ao final de mais um dia de labuta passavam por um dos cafés, locais de convívio social masculino, e aí, enquanto tomavam uma cerveja, punham a conversa em dia e trocavam informações. Depois do jantar, era quase um ritual, sempre que havia cinema e havia-o três vezes por semana, iam ver a última novidade em cartaz com as suas esposas e filhos, desde que estes tivessem idade para tal.
As mulheres destes homens, nunca o perguntei, porém estou certo de que a maior parte das vezes, foram elas que incentivaram os seus maridos a ousarem, a irem em frente! Elas são assim. Ocupavam-se das casas e da educação dos filhos; embora a maioria tivessem criados para as lides domésticas, que elas naturalmente geriam.
Os homens autóctones caçavam, recolhiam frutos, mel e tratavam do gado, se o tinham. Alguns, poucos, já davam uma mãozinha às mulheres nas lavras, este trabalho era ancestralmente considerado doméstico! Enquanto outros, ainda menos, trabalhavam num ou noutro emprego do comércio da vila em serviços subalternos. Era frequente ao final da tarde juntarem-se na sanzala à roda de uma sombra, que uma generosa e frondosa árvore lhes oferecia, para conversarem, bebiam o marufo ou maluvo, enquanto passavam informação e tratavam dos assuntos que à comunidade dizia respeito. Alguns homens, pouquíssimos, os que tinham dinheiro, também iam ao cinema. Aqui as mulheres não acompanhavam os homens, ficavam em casa.
Durante o dia as mulheres destes homens tratavam das habitações, dos filhos, do pilão, das refeições, da criação, das lavras onde cultivavam a mandioca, a batata-doce, o milho, o feijão e a jinguba. São (julgo que ainda hoje assim é) dignas de se verem no pilão ou de sachola na mão a cavar; sempre com os seus bebés às costas, envoltos pelos tradicionais panos africanos. As crianças, em contacto com o corpo da sua néngua (mãe), sentem-se seguras, não choram e até dormem; levadas no balancé ritmado das mães, sempre que levantam e baixam o tronco para potenciarem o golpe com que os sachos sulcam a terra. Quando os filhos têm fome, as mães puxam-nos para debaixo do braço e sem os tirarem dos panos dão-lhes de mamar. Espantoso é que depois de um dia árduo de labuta estas mulheres ainda arranjam forças para cantar e dançar sempre que socialmente lhes é exigido.
Com pequenas cambiantes, de ordem cultural, estas mulheres são bem iguais às mulheres das nossas terras. Lá como cá, verdadeiras heroínas, traves mestras das casas! Mulheres.
Não o sabiam quando ousaram partir, mas quis a desditosa vida que, um dia, voltassem a deixar tudo o que haviam construído e regressassem à pátria mãe e, cá, com a mesma coragem, ousadia e determinação, de novo se erguessem e reconstruíssem as suas vidas.
O mesmo oceano que levou um dia os nossos conterrâneos e os juntou aos africanos trouxe-os agora, a uns e a outros, embora em proporções diferentes e, mais uma vez, os juntou contribuindo para o desenvolvimento nacional. É por tudo isto que aqui deixo estas singelas palavras de homenagem a esta gesta de pessoas dignas do nosso respeito e admiração.

domingo, 21 de fevereiro de 2010


TRAGÉDIA NA MADEIRA!


É assim! Quando menos esperamos a tragédia bate-nos à porta. Ontem o horror trágico no Haiti; hoje a tragédia na Madeira.
O povo português mobiliza-se para apoiar os nossos concidadãos nesta hora de aflição, de resto como sempre faz em situações destas.
Porém, o auxílio imediato, sempre necessário, não chega para repor a normalidade de todos quantos perderam os seus haveres, especialmente as suas casas e infra-estruturas. É a pensar no dia de amanhã que aqui deixo uma sugestão: a todos os portugueses que estão a pensar fazer férias no estrangeiro, num gesto de solidariedade para com os madeirenses, mudem o roteiro e façam-nas este ano na Madeira!
Com esta atitude, que me parece simples, contribuiremos decisivamente para alavancarmos a economia local (e nacional) e, assim, prestaremos uma ajuda determinante para a reconstrução desta nossa pérola do Oceano Atlântico.
Foto: Internet

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


NOTÍCIAS DO SONGO


A Rádio N’gola Yeto informa que:

MINARS continua a apoiar no Uíge

21-01-2010
A directora provincial da Assistência e Reinserção Social no Uíge, Adelina Pinto, garantiu quarta-feira, no município do Songo, província do Uíge, o apoio em chapas de zinco para a construção de casas para os angolanos expulsos da RDC.
Falando no acto de entrega de produtos de primeira necessidade aos 1.253 regressados da RDC reassentados no Songo, a responsável disse que o MINARS, além de apoiar com produtos alimentares e outros bens vai, nos próximos dias, entregar chapas de zinco à população.

Adiantou que se espera que a administração municipal possa distribuir terrenos de construção dirigida para casas para os regressados, a fim de melhor assegurar as suas condições de acomodação.

Adelina Pinto encorajou igualmente os regressados no sentido de se engajarem no fabrico dos adobes e na agricultura, com vista ao combate à fome e à pobreza.

No fim do acto, a responsável procedeu à entrega de produtos diversos aos 1.253 angolanos, como fuba de milho, arroz, sabão, feijão, óleo alimentar, enxadas, catanas, cobertores, pás, machados e outros bens.

Os deficientes físicos receberam também do MINARS um donativo composto por cadeiras de rodas, kits de sapataria, de barbearia, de sapataria, de engraxador e linhas de costura.

sábado, 30 de janeiro de 2010


A NATUREZA É AINDA MAIS GENEROSA EM ÁFRICA!

Uma terra rica, onde algumas culturas frutificam duas vezes no mesmo ano! Isto para não falar das riquezas do subsolo, petróleo, diamantes entre outros… generosa, ainda, no índice de nascimentos que é elevadíssimo! Eu sei, que nascimento não é o mesmo que natalidade. Eu sei. Mas não é disto que quero falar. Um Continente onde há tanta gente a morrer de fome, de sede, de doenças endémicas, dizer-se que a Natureza é mais generosa, dito assim, até parece uma contracenso.
TROVOADAS! Pois é, é disto que me proponho falar neste pequeno apontamento de memórias. É que também em matéria de intempéries, nesta região de África, quando a Natureza decide dar, fá-lo em abundância.
Violentíssimas tempestades eclodem de repente do nada! E à mesma velocidade com que aparecem, desaparecem!
Na época das chuvas, quase todos os dias durante trinta a quarenta e cinco minutos chove torrencialmente. Está Sol e de repente enormes nuvens baixas, negras e fantasmagóricas, cobrem o céu e, com uma ferocidade inaudita, largam água a cântaros deixando tudo completamente alagado. Terminado o dilúvio as nuvens desaparecem e o céu abre-se ao astro-rei que, indiferente ao que acabara de acontecer, radiante volta a brilhar e meia hora depois, da chuva, nem vestígios; quando faz Sol é de derreter! Fá-lo com tal severidade que até os animais de grande porte como, por exemplo, o elefante se não se abriga tomba; quando troveja é de uma inclemência assustadora. Uma coreografia sinuosa de luz aos ziguezagues seguida pelo ribombar dos trovões ecoa por todo lado, é verdadeiramente desconcertante e atemorizante. Os raios pegam fogo ao capim aqui, queimam uma árvore mais isolada ali, é medonho.
Em África, às vezes, as trovoadas surgem do nada! Está um lindo dia de Sol sem nuvens e, de repente, ouve-se um trovão sem se saber de onde surgiu! Olha-se então para o ar a fim de descortinar a razão de ser de tal estrondo, e, além, na imensidão do azul céu, vê-se uma pequena nuvem, eis aí a causa de tamanho estrondo!
A propósito, num lindo dia de Sol, logo pela manhã, eu e o Cardoso fomos a Carmona, se a memória não me atraiçoa, fazer exame de condução. Quando regressámos ao Quartel já passava muito da hora do almoço, o Sol ia alto e o calor apertava severamente. Na messe não se via nenhum graduado, apenas o faxina, pachorrentamente, ia arrumando a loiça do almoço. Este, ao ver-nos chegar pergunta se queremos comer e logo se apressa a pôr a mesa. Já no decorrer da refeição, de repente, ouvem-se vários estampidos (tipo rajada) seguidos de um forte estrondo que nos fez atirar para o chão! Voou a mesa e com ela toda a loiça e naturalmente a comida. Ficámos os dois estendidos no abrigo do chão da messe. Passados alguns segundos, apesar de sentirmos o coração a palpitar conseguimos reflectir e, depois de olharmos um para o outro, encolhemos os ombros minimizando o acontecido e levantámo-nos! – Tínhamos agido reflexivamente, depois dos treinos e dos tiros reais da guerra aprendemos a reagir ao mínimo estampido procurando um abrigo –, contudo, indagámos sobre o motivo de tais estampidos e logo o encontrámos: um sulco esculpido no cimento do chão indica o que acontecera, um raio atravessara a messe de Leste para Oeste! Daí as chicotadas seguidas do estrondo. Olhámos para o céu e vimos duas pequenas nuvens lá para os lados da serra do Uíge, a razão de ser deste fenómeno.
Mas não há nada como assistir a uma trovoada à noite em África, é algo que jamais se esquece. Eu gosto de o fazer da janela do meu quarto que está voltada para a Serra do Uíge. À noite a serra é escura como breu, mas os relâmpagos iluminam a montanha e podem ver-se até os grossos pingos de chuva a caírem com uma intensidade estonteante, as folhas das árvores adquirem nestes momentos uma cor azulada e os raios ziguezagueiam em queda livre esventrando a copa das árvores e logo são engolidos pela escuridão da noite que estremece com o ribombar do forte trovão! É um espectáculo. Temeroso, nostálgico, mas de uma beleza indescritível.
As trovadas são responsáveis pela maioria das queimadas (algumas são provocadas pela acção do homem), a faísca pega fogo a uma árvore ou ao capim e a estepe arde durante dias a fio. Também isto é um espectáculo, sobretudo à noite, ver a linha sinuosa do fogo subir e descer os montes lá longe… o fogo carboniza tudo o que se lhe atravessa no caminho, a flora e a fauna são engolidas com uma voracidade sem contemplação nem dó. Só o verde da floresta o consegue dominar pondo-lhe fim.
Eis outro acontecimento, nostálgico, da África imensa que retenho na memória para sempre.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010




NOTÍCIAS DO SONGO



04-01-2009 18:29

Uíge
Inauguradas três escolas em três localidades do Songo.

Uíge - três escolas do ensino de base foram inauguradas domingo, em três localidades do município do Songo, província do Uíge, pelo governador Mawete João Baptista.

As inaugurações dos novos estabelecimentos escolares (um total de 20 salas de aulas) aconteceram no quadro das celebrações do 48º aniversário do Dia dos Mártires de Repressão Colonial, que se assinala hoje em todo o país.

Beneficiaram destes empreendimentos as localidades de Kimussungo com cinco salas de aulas, Banza Luanda II com igual número de salas e o bairro 10 de Maio com 10 salas. No próximo ano lectivos, as novas escolas vão albergar mil e 600 alunos.


As escolas, apetrechadas com carteiras, quadros pretos e secretarias para os professores, foram erguidas no âmbito do Programa de Investimentos Públicos da província do Uíge.


Numa mensagem de agradecimento, as crianças defenderam a necessidade de o governo cumprir os 11 compromissos por ele assinado sobre os direitos das crianças.


O governador da província do Uíge, Mawete João Baptista, pediu aos habitantes destas localidades para que cuidem as escolas.
Fonte: ANGOP

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


HORROR! HORROR! HORROR!

É a palavra que encontro para expressar o que sinto à medida que vou tomando conhecimento, através das imagens da comunicação social, do cataclismo que varreu e assolou o Haiti.
Atento às notícias, vejo que algumas instituições particulares e oficiais vão começando a agir, é verdade. Ouvi o apelo de Sua Santidade o Papa que muito me sensibilizou. Mas, meus irmãos, a dimensão da catástrofe é de tal monta que não chegam as palavras, por mais bem-intencionadas que sejam.
Todos: instituições oficiais, particulares, religiosas e individualmente, cada um de nós, somos poucos para ajudar aquele povo mártir a erguer-se. Este povo tem o direito a recuperar as suas casas, as suas instituições e o seu país. E, todos nós temos o dever humanitário e moral de os ajudar.
Depois do auxílio básico que já começa a chegar, é necessário dinheiro, e muito, para que as pessoas e o país se possam reerguer. Participemos, cada um de nós, individualmente com um donativo generoso para retirar estas pessoas da miséria a que estão sujeitos.
Nós, portugueses, já passámos por um cataclismo idêntico em 1755! E dizem os cientistas que estamos na eminência de outro! Não nos esqueçamos e entreguemos a nossa contribuição a instituições sérias e honestas que estão no terreno. E, já agora, atenção aos urubus vigaristas que sobrevoam por cima dos cadáveres e das pessoas em sofrimento.
Bem-haja e um abraço solidário.

sábado, 9 de janeiro de 2010




O “Cambalhotas”


Homem africano de estatura média, com uma agilidade extraordinária, dava um salto mortal de cima de uma berliet, em andamento, a quarenta quilómetros por hora e conseguia saltar para o chão ficando de pé! Espantoso não é verdade?
Uma ocasião vestiu-se de guerreiro, como era costume do seu povo, segundo ele, e pediu-me que lhe tirasse uma foto, vindo mais tarde a oferecer-me uma cópia como prova da sua amizade e para que eu nunca me esquecesse dele! Não te esqueci, amigo.
Este é o retrato de um Homem angolano que, com os pés assentes na sua terra, serviu Portugal, na Companhia “Os Fantasmas” no Songo, de 1973 a 1975.
Na pessoa deste meu amigo africano quero homenagear quantos, e tantos foram, serviram a pátria ombro a ombro connosco. Com votos de que a memória colectiva do nosso país nunca os esqueça.